terça-feira, 9 de junho de 2009

Capítulo V: “Mundo Real”

- É como eu imaginava.
Lufus se via num beco. Estava agora na terra dos humanos, acompanhado de Jasira.
Era noite, a lua não brilhava muito, a maior parte da luz noturna era artificial. O beco era o local mais escuro dali, onde as luzes dos edifícios, postes, casas e os faróis dos carros não atingiam muito. Podia se ver uma rua dali, o beco dava nela, ele era bem estreito, porém ultimamente andava movimentado. A parede do outro lado emanava uma energia, Lufus via que se ele tentasse atravessar voltaria ao portal que o trouxe.
- Olhe! – Jasira chamou sua atenção.
- Humanos. – Constatou.
Um casal apareceu na calçada em frente ao beco, com um carrinho de bebê.
- Parece que achamos nossas primeiras vítimas. – Lufus sorria.
- Será que devemos? – Pergunta Jasira.
- Do que está falando?
- Não seria melhor acharmos alguém que estivesse sozinho?
- Mas são só humanos, se não conseguirmos as almas deles por bem, podemos matá-los.
- Mas muitos iam ver se atacarmos eles aqui, em público.
- Tem razão, seria um problema.
- Vamos esperar eles saírem, então vamos em busca de outros.
- Parece que estamos com sorte.
O rapaz beija a moça e atravessa a rua, ela fica parada olhando para o carrinho.
- Eu vou atrás do homem, fique com a alma dela. – Dizia Jasira já se encaminhando para fora.
A mulher olha para Lufus quando ele sai do vão, este a recebe com um sorriso.
- Olá. – Diz ele elegantemente.
- Ah... oi. – A mulher balança o carrinho sem muita consciência do que está fazendo.
- Poderia me dar uma ajuda? Estou meio perdido.
- Sim, claro. – Os olhos dela brilhavam.
- Poderia tomar um café comigo enquanto conversamos? – Ele oferece gentilmente.
A mulher olha um instante para o outro lado da rua, para farmácia onde seu marido havia entrado.
- Tudo bem. – Ela sorria.
Os dois caminham para a lanchonete ao lado do beco.

***

Três jovens conversavam numa viela bem parada.
- Afinal o que fazemos aqui, devíamos patrulhar. – Disse um deles.
- Hoje está tudo calmo. – Dizia Dédalos pensativo.
- Graças a Deus. – A garota que disse isso, o fez inexpressiva.
- Você vai ver como fizeste bem em começar a usar armas. – O primeiro falou.
- Eu sei. – Responde Dédalos.
- É muito arriscado enfrentar demônios sem nada pra se defender, eles são muito fortes para nós.
- Mas você também começou sem armas Joshua. – Dédalos o lembrava.
- Sim, mas logo peguei uma.
Joshua estava sentado no capô de um Corvette, o carro era de Dédalos. Joshua se vestia de bermuda e estava com uma camiseta vermelha, ele usava roupas com cores fortes, pois achava que os demônios não gostavam. Ele era o mais singular dos três, não era corajoso, honrado ou vingativo, simplesmente achava que não tinha nada a perder, odiava os demônios só pelo fato de serem demônios. Tinha dois revólveres de calibre 45 na cintura, estavam em coldres num cinto que sempre usava. Hoje ele estava com uma espingarda calibre 12 pendurada por uma alça diagonal que cortava seu peito, raramente andava com a arma, por ela ser grande e chamar atenção. Ele tinha 23 anos, e não possuía porte de arma.
- Que seja, agora não faz mais diferença, já que estou armado também.
- Tá, você quer o que? – Pergunta Joshua.
- Nada. Pra que trazer essa espingarda?
- Ah, depois que o Cian falou que tínhamos que andar juntos, eu achei que fosse precisar de algo mais agressivo.
- Resumindo, ele está com medo. – Disse a garota.
- E você já me viu temer algum demônio, Morigan?
- Não, mas você provavelmente não demonstra.
Morigan estava sentada no chão, era a única mulher ali, era também a mais nova, e a mais imprudente dos três. Na opinião de Dédalos ela perdia a noção do perigo, enfrentava os demônios como se fosse fácil derrotá-los.
- Não tenho medo de demônios, e nem de demonstrar meus sentimentos.
- Ta bom então, você trouxe a arma só por precaução. – Ela estava vestida com uma calça de ginástica e uma blusa regata apesar do vento frio da noite. Ela abandonou seu estilo gótico desde que soube da existência dos demônios. Já que, ao que parecia, eles realmente gostavam do estilo.
- Vamos dar uma andada por aí, pra ver se está tudo bem.
- Calma Joshua, daqui a pouco nós vamos. – Reclama Dédalos.
- O que Cian falou pra você da última vez que se encontraram?
- Por que esse interesse?
- Desde então você anda muito pensativo. O que ele disse?
- Nada de mais Joshua, nada de mais.

***

Quando Lufus tocou na pele da mulher, sentiu algo maravilhoso. Sentiu seu corpo receber um calor intenso. Parecia que um fluxo de energia entrava por suas mãos e corriam seu corpo inteiro, era um prazer inacreditável. Ele pode sonhar durante alguns segundos e por este instante achou sua vida perfeita. Ao término se sentia totalmente revigorado e forte.
- Terei tudo o que quero agora? – Pergunta a moça.
- E a partir de agora sempre terá.
- Qual é teu nome?
- Lufus.
- Acabo de entregar minha alma ao demônio, não é?
- Mais o menos isso.
- Parece que perdi uma parte de mim.
- Pelo menos você estará sempre comigo agora.
- Vejo que minha vida estará perdida.
- Mas você não vai se importar, sua mente não é a mesma agora.
Ela olha para o chão com uma expressão vazia.
- Tenho que ir agora. – Ele se despede.
- É... Tchau. – Ela agora sentia um vazio na alma e uma tremenda melancolia.
Ele se levanta e sai sem olhar para ela.

***

Ao sair na rua ele não vê nem Jasira nem o homem que ela foi atrás, o que chamava a atenção de Lufus agora era um prédio alto localizado a umas duas quadras da lanchonete. Ele foi até lá.

Assim que entrou o porteiro lhe cumprimentou.
- Pois não?
- Queria ir até o terraço.
- Pegue o elevador até o último andar e suba a escada no fim do corredor.
- Muito obrigado. – Lufus já se acostumou com a facilidade de lidar com humanos.
Subiu até o topo, achou a escada, o fim dela dava em uma porta, ele a abriu e chegou lá fora.
- Nossa!
Percebeu que quando absorvia uma alma todas as sensações se tornavam mais prazerosas. Sentir o vento bater no seu rosto estava lhe dando muito conforto.
Lufus sentou no beiral do prédio e ficou observando a cidade, poderia ter chegado lá voando, mas iriam vê-lo. De qualquer modo estava lá, e era um lugar agradável. Já pensava em ter mais almas, e refletia na idéia de que a sensação de matar talvez seja ótima, ele sente um impulso a fazê-lo.
- Ei!
Lufus se vira e vê uma gárgula, quando chegou ela não estava lá.
- O que foi? – Ele pergunta.
- Esse local é meu, vá pastar em outro lugar!
A gárgula tinha uma voz monstruosa e estava bem agressiva.
Lufus se levanta e fica frente a frente com ela.
- E quem vai me expulsar?