terça-feira, 28 de julho de 2009

Capítulo X: Encontro

- Está mais calmo por aqui.
- Chegamos mais tarde hoje. – Disse Lufus.
Ele e Jasira atravessaram o portal e agora estavam na terra dos humanos. Usaram o mesmo portal que entraram na última vez e saíram no mesmo beco.
- Espero que esteja fácil encontrar pessoas. – Jasira se dirigia ao fim do beco.
- Podemos invadir alguma casa. – Sugere Lufus.
- Porque eu não pensei nisso?
Passavam alguns carros pela rua em frente, não havia ninguém andando.
- Vou voar e procurar alguém, ou parar um carro. – Jasira deu as costas para ele.
- Logo alguém aparece.
Ela levantou vôo e saiu.

- Cara!
Lufus já chegara à calçada quando se virou. Havia um demônio saindo do portal no beco.
- Quem é você? – Lufus diz se aproximando.
O demônio era um Litel, raça de demônios humanóides semelhantes aos répteis.
- Sou Telpir, uma boa parte dessa região é minha. – Agora haviam dois pequenos Imps ao seu lado.
- Essa história outra vez. – Lufus contraiu suas mãos, as garras preparadas.
- Calma, eu soube do seu problema com a gárgula, eu vou lhe ajudar.
- Vai?
- Você pode consumir as almas daqui, é só me dar uma pequena parcela delas.
- E se eu recusar?
- Nesse caso terá de procurar outras bandas.
- Sinto muito, vou recusar sua proposta.
- Arrogante como todos da sua laia.
Lufus sente uma força jogando-o no chão e o mantendo pressionado contra a calçada.
- Mas o que... – Lufus tentava levantar sem sucesso.
Telpir vê os olhos do Incubus ficarem vermelhos. Consegue, sem muito esforço, manter Lufus no chão com telecinésia. Agora surgem mais Incubus, três novos demônios idênticos ao que está no chão se aproximam do réptil.
- Não importa quantos venham. – Telpir usa sua telecinésia para arremessar os outros demônios para longe.
Estes somem, o primeiro Incubus estava agora segurando a garganta do Litel.
- Quem é o arrogante agora? – Lufus tinha um sorriso trêmulo no rosto.
- Maldito! Era uma ilusão. – Pragueja o réptil.
Lufus joga o demônio na parede do portal e o Litel o atravessa.
Os dois Imps rosnam para Lufus e seguem Telpir.
Lufus vai embora.

***

Enquanto Jasira voa, percebe um homem na janela de seu apartamento olhando-a. Ela muda de direção e vai até ele.
O homem se afasta para que Jasira entre, não parecia impressionado. Jasira sente algo familiar.
- Você é um demônio. – Afirma ela.
Ele não diz nada.
- Está metamorfoseado ou é um Incubus?
- Sou um Perdido.
- Ah, um humano transformado. Vejo que ainda vive como um humano.
- Eu continuo levando minha vida do mesmo jeito, só que tenho de prestar contas ao demônio que me transformou.
- Ele te ameaça? – Ela acha graça.
- Não, mas tenho que negociar para ele me dar almas, não consigo tirar diretamente de humanos, geralmente levo pessoas até ele e consigo uma parte da alma delas.
- Parece-me um bom negócio.
- Para os que transformam humanos pode ser.
- Você devia agradecer, agora você tem vida eterna.
- E terei que lidar para sempre com os demônios que comandam a cidade.
- Sei pouco sobre isso.
- Vários demônios dividiram a cidade entre si, assim eles se apossam de parte das almas que os outros demônios consomem. Fazem isso para tirar vantagem dos mais fracos e dos novatos. Como você provavelmente é.
- Um amigo meu já foi atacado por uma Gárgula, deve ser um deles.
- Amigo? Tem amigos? É melhor não confiar nele. – O homem olhava para ela com certa curiosidade. - Demônios não são confiáveis, você deveria saber, já que também não é.
- Você é um demônio agora, então também não é confiável?
- Eu não disse que era.
- É. Não disse.

***

Lufus andava pela rua, haviam muitos carros e poucas pessoas. Os bares estavam abertos. Era provavelmente em um deles que o Incubus buscaria alguém. Não estava precisando de almas, hoje iria atrás porque gostava. Ele até gostava do mundo dos humanos, mas o que faria ali além de caçar almas?
Antes que pudesse pensar em alguma coisa viu uma mulher que o fitava, era uma mulher muito bonita e jovem, de certa forma o fascinara. Parecia simples, usava uma blusa branca comum, uma maquiagem bem leve nos olhos e usava um batom quase da cor de sua boca.
A moça veio em sua direção, parecia que era ela quem iria seduzi-lo, não o contrário.
- Procurando alguém? – Ela tinha um tom seco.
- Procurando companhia. – Ele respondeu
- Esta hora? Na rua?
- Estou na calçada.
- Não me diga!
Ele parecia não raciocinar muito bem, percebeu que ela era um demônio e estava fazendo bem mais que só seduzi-lo. Ela era poderosa.
- O que foi? – Ela pergunta.
- Não é todo dia que vejo alguém assim.
- E o que acha que sou? – Ela pareceu não gostar do comentário.
- Eu não sei, sou todo ouvidos.
Ela pareceu indecisa por um momento e já estava olhando-o de uma forma diferente. Ele sentiu um arrepio com isso.
- O que está havendo aqui? – Ela começava a ficar confusa, Lufus mais ainda.
- Podemos começar nos apresentando. – Ele se aproxima.
- Fique longe de mim demônio!
- Hã?
Ela indicou com a cabeça para suas asas.
- Você pode vê-las? – Lufus percebeu que ela era humana. Estranha, mas ainda assim humana.
- É claro, não sou cega!
Lufus não havia escondido as asas, todavia seu poder de manipulação fazia com que qualquer um não percebesse.
- Calma, não vou te machucar. – Isso soou estranho até mesmo para ele.
Ela aquietou-se e fitou-o com uma expressão estranha. Ela entrava numa espécie de luta contra si mesma.
- Acredite. – Ele pôs delicadamente a mão em seu braço.
- Não toque em mim! – Ela tirou a mão dele e se afastou. Pegou um chicote que num estalo se desenrolou.
- Mas o que...
Ela levantou o braço ameaçando atacar.
- Espere! – Pediu ele.
Ela hesitou.
- Não temos porque brigar.
- Claro que temos, você é um demônio.
- E que culpa eu tenho?
- Vai me dizer que queria ser humano? – Morigan zombava dele para disfarçar o nervosismo.
- Não, mas não estou te atacando só por você ser humana. E olha que me alimento de almas.
- Boa defesa.
- Estou sendo sincero. – Não era a palavra que ele queria usar.
- Ah!
Ela ainda estava com o braço levantado.
- Vá embora. – Gritou
- Mas...
- VÁ! – Ela repetiu.
Ele voou e se afastou devagar, olhando para ela.
Morigan só relaxou quando ele sumiu. Relaxou só o corpo, pois sua mente não sossegaria tão cedo.

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